domingo, 7 de março de 2010

Aquilo que ela escreve antes de dormir


Pela manhã, sou individualista. Quero meus segredos só pra mim. Não contaria mais nada a mais ninguém. Sou séria no meu necessário.

Eu, de manhã, esqueço meus amores. Os ex-amores. Apago-os de um sonho eterno.
De manhã eu espero que o corpo morra, fico perseverando a depressão.
São só dois passos. É só um passo. Se eu cair... Se eu cair é melhor.

De manhã eu gosto do argumento de não levantar. Ser doente é matutino. A manhã dispara as minhas entranhas.
Se eu não acordar é melhor. Se eu cair, tanto faz.

Eu, pela manhã, sou o avesso do noturno.
O dia raiou e levou embora meus amigos.
De manhã sou só segredos.
Se eu dormir é melhor, tanto faz.
Caindo a noite, o que eu sou me trai.

A manhã poderia matar meu noturno.
Eu acordaria viva de melancolia.
Ninguém nunca mais machucaria a mim.
Esses da noite, esses que amanhecem... Morreriam todos com a manhã.
Só eu e a tristeza desejada. Afundando na certeza de que eu, partida, sem a noite seria inteira.

1 comentários:

OutroRafael disse...

Manhã: Apolo. Noite: Dioniso. Manhã: pastoral. Noite: tragédia. Manhã: projeto. Noite: acaso. Manhã: força-tarefa. Noite: comunidade. Manhã: marcha. Noite: dança. Manhã: fragilidade da força. Noite: força da fragilidade. Manhã: civilização. Noite: cultura. Não é à toa que te encontrei à noite!